Bom dia. Tenho que ir. Desculpe acordar você, estou atrás das minhas chaves, você viu minhas chaves? Preciso sair já, imediatamente, ou então estarei frito, quer dizer, já estou frito, só estou tentando não passar do ponto, você sabe delas? As minhas chaves. Olha, sei que depois fica mais fácil dizer que isso não devia ter acontecido, foi um acidente e toda aquela ladainha. Mas é o que foi. Você sabia disso, não sabia?
Que cara é essa? Você vai chegar lá, vai saber como as coisas funcionam aos trinta. Me ajuda? Com as chaves. Eu também achava isso, mas não se iluda. Ao chegar em casa logo mais, observe bem seus pais, fique em silêncio, de pé na cozinha. Sei que você não crê na minha má notícia, mas você um dia vai ficar igualzinho a eles, salvo se for abduzida por um comercial de televisão para algum desses produtos porcaria de família.
Ei, não estou procurando me absolver, mas é que, sei lá. É como se você não tivesse pra onde correr sem desapontar ninguém, sabe? Eu preciso escolher quem machucar nessa história toda. De um lado essa grande garota, os planos de casa, filhos, um nome bacana para o cachorro e aquela porcaria toda que a ordem social das coisas tenta nos empanturrar, as satisfações que preciso dar a todos que esperam ser felizes com esta minha suposta felicidade. O velho lugar-comum de sempre, os velhos sonhos de sempre.
Sempre me orgulhei de nunca matar um mosquito. Mas essa coisa de paixão esmaece, como a gente sempre ouve falar por aí. Você toma seus pais como exemplo, diz que nada daquilo será contigo. E um dia, antes de marcar a data do casamento, você nota que anda sofrendo de perdas temporárias de tesão um pelo outro. Aí a pergunta: o que vem depois? Você simplesmente entra em pânico, saca? Não, você não entende. Mas vai, um dia. Só tente não perder a fé na humanidade até chegar lá, ok? Encontrou? Minhas chaves? Droga.
Se a amo? Claro que amo, que tipo de pergunta é essa? Sabe, estamos juntos há sei lá quanto tempo. E talvez eu esteja cometendo um sincericídio, mas acho que ela nem se importaria tanto ao saber por onde andei essa noite. No duro, contanto que eu esteja lá plantado esperando por ela, no dia, hora e igreja certa, bem arrumado e disposto a cumprir com que ensaiei no dia anterior - ou seja, programado pra dizer "sim". Parece pouco, mas é sua impressão juvenil. Então, pra quê arriscar tudo isso?
Triste? Você pode até dizer isso, se quiser, só acho que os adultérios deveriam ser analisar a cada caso. Eu, por exemplo, nunca me envolvo emocionalmente com ninguém, coisa que alivia minha culpa sempre que preciso olhar diretamente no rosto dela. Chega um momento em que você precisa decidir qual azedume parece mais suportável: deixar pra lá todos os seus desejos ou então sentir-se corroído um pouco todos os dias. Você tem razão, alguma coisa dentro de mim morreu. Talvez eu tenha me perdido de mim mesmo. Mas não sei se posso, ou mesmo quero voltar. Tá feito.
Verdade, quem sabe da próxima vez seja mais produtivo um analista e não uma garota de vinte e poucos anos, fã de Evanescence, Creed e essas coisas, e ainda mais precisando de um namorado. E não se engane, eu sou um idiota, pra você, pra ela, pra todo mundo, inclusive pra mim mesmo. Mas olha aqui pra mim, vou te dizer onde mora o perigo, guarde isso com você, use com seu namorado, se acaso vocês chegarem lá.
Não é cansaço, não é o longo tempo, não é porque você precisa desesperadamente de um olhar desejoso outra vez, não é porque você não tem dinheiro pra comprar os cremes que a Camila Pitanga oferece na tevê, ou porque sua voz não é sexy, ou seu olhar não brilha, porque faltam assuntos na mesa do jantar, ou porque a vida deveria ser feita de chupadas chamuscantes que você nunca ouviu falar.
É uma questão de costume. É duro aceitar a ideia de passar o resto da sua vida ao lado da tal pessoa. É difícil imaginar um troço desses. Então a gente pula em outras camas como fossem pequenos precipícios, buscando uma última salvação ou resposta de que aquilo é tudo que você deve esperar do amor. Quer dizer, existe essa coisa de amor, só que não é exatamente o que a gente pensou que fosse.
sexta-feira, 9 de setembro de 2011
Adulterados..
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